Angola na rota da revolução energética?
Publicado por adalbertus em Março 2, 2008
Na sua recente visita a Angola, o Presidente Brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, convidou o estado Angolano a participar daquilo que muitos especialistas económicos chamam de “revolução dos bio-combustíveis”. Convite este, prontamente abraçado através da criação de uma sociedade de direito angolano constituída pelos grupos Damer, Odebrecht, e Sonangol que se comprometeram a produzir, em Angola, energia com base em cana-de-açúcar.
Fala-se num investimento de 200 milhões de dólares, numa área agrícola de 30 mil hectares com uma unidade industrial que produzirá 160 mil toneladas de açúcar, 50,000 m³ de álcool, 140 Mwh de energia eléctrica por ano criando assim mais de dois mil postos de trabalho.
Mais do que realçar estes indicadores, vale lembrar e enfatizar o sentido estratégico dos dois estados em caminharem rumo ao futuro investindo nesta fonte de energia que prevê também resgatar o potencial agro-industrial do país, que num passado não muito distante jogou um papel de destaque entre os países exportadores de produtos agrícolas.
É bem verdade e foi já dito por analistas em questões de desenvolvimento que faltam muitas décadas para que os bio-combustíveis se tornem numa fonte importante de energia alternativa para o continente, mas que a sua produção poderia significar um impulso às economias do continente gerando receitas e reduzindo a dependência que determinados países têm na importação de combustíveis fósseis.
A importação de combustíveis não é uma realidade muito marcante para Angola uma vez que para além de ser o segundo maior produtor de crude na África Sub-sahariana com uma produção que se estima actualmente em cerca de um milhão e meio de barris por dia, Angola também espera ver a sua capacidade de refinação aumentada significativamente em mais cinco vezes com a refinaria do Lobito cuja construção deverá começar em 2008.
Países há como o Quénia, Namíbia, Ghana e Zâmbia que têm o petróleo e seus derivados como uma parte expressiva das suas importações, mas ao mesmo tempo se encontram numa posição vantajosa devido as suas vastas áreas não cultivadas e custos baixos associados a actividade agrícola.
Os bio-combustíveis poderão então alterar essa equação, fazendo com que parte dos recursos hoje usados na importação de combustíveis fique nas mãos dos agricultores e da indústria de bio-combustíveis impulsionando assim o crescimento económico destes países e reduzindo a sua dependência das importações.
É entendimento que é possível fazer dos bio-combustíveis uma alternativa que para além de não ser abrasiva para o ambiente, jogará um papel fundamental na melhoria da vida dos agricultores e populações rurais.
Não será por acaso que algumas das maiores petrolíferas do mundo, como a BP, Chevron, Exxon e a Marathon têm investido seriamente neste sector, fundamentalmente através da construção de fábricas piloto e financiamento a investigação científica para a descoberta da segunda geração de bio-combustíveis. Tudo isto numa altura em que há indicadores que prevêem que os bio-combustíveis passem a responder por 30% do consumo mundial para veículos de transporte em 2030.
Assim sendo, Angola está já posicionada na linha da frente para impulsionar esta indústria tendo como principal parceiro o Brasil, líder da revolução da energia renovável, e reconhecido mundialmente pelo pioneirismo na introdução do etanol na sua matriz energética.
Há quem pense que em 15 ou 20 anos a chamada geopolítica do petróleo se transforme numa geopolítica dos combustíveis abrindo espaço para o domínio de países como o já citado Brasil, Austrália, China, índia e determinados países africanos onde se poderá incluir Angola.
Assim sendo, Angola que poderia figurar na lista de países desinteressados no desenvolvimento deste sector devido aos seus “petrodólares”, poderá engajar-se no seu desenvolvimento usando a sua já provada capacidade de influenciar políticas a nível regional para ser o impulsionador e denominador comum desta “revolução energética” no continente. Outros gigantes do petróleo africano como a Nigéria e a República do Congo têm ensaiado algumas iniciativas a nível dos bio-combustíveis e seria interessante ver outros produtores como a Argélia, Líbia, Egipto e Guiné Equatorial a empreenderem iniciativas neste sector na perspectiva de mitigar os riscos de gerações vindouras que não mais contarão com as actuais reservas provadas.
É verdade que se estima que os países da Africa sub-sahariana venham a receber mais de 200 biliões de dólares em receitas derivadas da produção petrolífera na próxima década o que lhes permitiria estabelecer as bases para um futuro próspero das suas nações, mas é também verdade que historicamente os recursos do petróleo não têm ajudado os países em desenvolvimento a reduzir a pobreza tendo em alguns casos servido para alimentar conflitos armados e outros infortúnios sociais.
Assim, seria interessante começarmos a ver a materialização dos primeiros passos acordados a nível da exploração e produção de bio-combustíveis em Angola e a sua consequente expansão e replicação na região. Desta forma estaríamos talvez a implementar uma estratégia de longo prazo com impacto positivo no crescimento, diversificação e desenvolvimento económico do país, melhoria da qualidade de vida do cidadão com realce para as zonas rurais criando um efeito “bola de neve” nas gerações vindouras e que poderá potenciar as aspirações económicas e políticas do estado angolano na região.
Adalberto Fernandes
Novembro de 2007