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Arquivo de Fevereiro, 2011

O Melão Doirado do Magreb

Publicado por adalbertus em Fevereiro 10, 2011

Acabava eu de chegar das minhas merecidas férias quando ao conectar-me na minha rede social favorita, o facebook, deparo-me com um apimentado debate sobre o já famosíssimo melão doirado da não menos famosa Casa dos Frescos (passe a publicidade).

Melões e especulações a parte, a acesa discussão que para os meus olhos começou com os facebookanos de Angola, indo parar ao blog Club-K e ao website Angonoticias, se tornou tema de conversa nas esquinas e praças da cidade, nas empresas, bares, candongueiros e finalmente tema central das sentadas familiares de fim-de-semana como bem cantou a diva Pérola – que a propósito é uma das 200 pessoas a mim conectadas via facebook.

Inspirado, comecei a escrever um artigo sobre esta demonstração de força dos new media angolanos, quando sou surpreendido pelo papel quase determinante que os média sociais jogaram e têm jogado, na Tunísia e no Egipto, ao ajudarem os manifestantes a se organizarem e a resgatar a atenção da comunidade internacional.

Uma imagem que não me sai da cabeça é a de um vídeo amador filmado a partir da varanda de um apartamento na cidade do Cairo, em que se vê um turbilhão de manifestantes egípcios nas ruas desafiando a autoridade da polícia.

Neste vídeo um jovem coloca-se corajosamente em frente a um canhão de água como se fosse capaz de travar o jacto de alta pressão que momentos depois é pulverizado perigosamente para o rosto do jovem – que deus o tenha.

O dramático vídeo, é tal e qual o vídeo do jovem Tunisino, Mohamed Bouazizi, que imolou-se, apenas mais um exemplo de como as redes sociais estão a ser usadas para documentar e disseminar cenas da vida real para todo o mundo.

Resumindo, na Tunísia e fundamentalmente no Egipto, o facebook, o twitter e o youtube revelaram-se ferramentas importantes para aumentar a consciencialização, criar slogans, marcar e indicar pontos de reuniões. Uma das acções mais relevantes foi o inquérito iniciado no facebook por um grupo pró-democrata que continha uma única questão: “você vai se manifestar no dia 25 de Janeiro?” – mais de noventa mil pessoas disseram que sim.

Foi assim que o governo do Egipto bloqueou o acesso a certos médias sociais e redes telefónicas forçando os provedores de acesso a Internet a cooperar – uma atitude que se revelou simplesmente ineficaz.

Os média sociais revelam-se então como uma das mais eficazes ferramentas de comunicação capazes de mobilizar grandes massas populares em qualquer parte do mundo globalizado, incluindo Angola.

Sim, incluindo Angola. Esqueçam o argumento de que o acesso às tecnologias de informação por cá é ainda limitado pois segundo os indicadores de desenvolvimento humano do Banco Mundial no Egipto apenas 18% da população tem acesso regular a Internet. Peguemos como exemplo o inocente caso do melão doirado (novamente ele) num país onde segundo o estudo acima citado apenas 3.1% da população acede regularmente a Internet foi possível levar o caso às barras da justiça.

Redes sociais a parte não podemos dar-nos ao luxo de esquecer que a fonte primária dos tumultos no norte de África está longe de ser o nível de acesso a Internet mas sim o volume de corrupção governativa, desigualdades, pobreza, falta de emprego e de oportunidades.

Falo das mesmas oportunidades que faltaram a Mohamed Bouazizi, um jovem de 26 anos e com formação superior que sobrevivia zungando pelas ruas de Tunis e que expressou a sua frustração da maneira mais drástica possível devido à falta de emprego, oportunidade e dignidade, quebrando assim a barreira do medo que paralisava às populações árabes, e pondo a nu o descontentamento geral com os seus governos.

Adalberto Fernandes

Publicado em Opiniao, Politica | 1 Comentário »

 
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